Mauro Júnior (da série As Bonequinhas Infelizes) / Dennis D.
Rebeca passara a manhã inteira sozinha, despercebida, alicate na mão, a criar seus ferrinhos cirúrgicos feitos com ganchos metálicos de uma velha cortina de banheiro. A nova sala de cirurgia para bonecas estava pronta para a realização do primeiro transplante. O cheiro forte do álcool dominava o ambiente. Duas lâmpadas de 100 watts iluminavam o corpo imóvel do pequeno paciente-receptor, Mauro Júnior, o boneco-bebê. O paciente-doador chegou minutos depois, embrulhado num pedaço de lençol azul estampado com margaridas de miolo negro. Rebeca fez um gesto misterioso, a fim de que a boneca Lorena se posicionasse ao lado do paciente-doador. Este se mostrava muito, muito agitado. “Imobilizem as pernas dessa criatura”, ordenou a cirurgiã, dirigindo-se a outras bonecas de sua equipe. “Usem os fios de pesca! Amarrem com força! Quero imobilidade absoluta, suas incompetentes!” “Sim, doutora, assim faremos”, disse a boneca Lorena. Às oito horas da noite, após o jantar e a sobremesa, Rebeca trouxe o boneco-bebê, para que a mãe visse o fantástico resultado do transplante. “Veja, mãezinha, ele agora pode enxergar!” A mãe de Rebeca deu uma espiada de relance. Achou que os olhos do boneco pareciam estranhamente minúsculos e vivos, mas não quis observar melhor; sua cabeça estava ocupada com assuntos sérios. “Que bom, filhinha”, foi só o que disse. No meio do quintal, naquela mesma hora, Celeste, a tartaruga, caminhava em círculos sobre um rastro de sangue. O animal sofria, mudo, na escuridão terrível dos que perderam os olhos de ver e de chorar.
Escrito por Dennis D. : 20h50

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