A Casa dos Cravos / Dennis D.
Era setembro de 1925, naquela nova São Paulo toda modernista, onde – a despeito dos oswalds pançudos, dos marios cabeçudos e dos abapurus pezudos, ainda se falava algum francês, aqui e ali, nos salões da Avenida Paulista. Bem, vamos aos fatos! Fernando Barbosa Fernandes casou-se com Mariazinha Camargo de Lima e foram morar no casarão (tão bem proporcionado) hoje conhecido como Casa dos Cravos. Dizem que Mariazinha e Fernando eram dados a jogos de amantes. Não passavam uma noite sequer, sem brincar de esconde-esconde, ele de pijama de seda, ela com a camisola de cetim duchese, ambos descalços, cheios de risos, de suspirações, de aiaiais. Aquilo parecia uma festa sem fim, mas não durou muito, não. Numa dessas brincadeiras noturnas, Fernando resolveu se enfiar no fundo de um armário guarda-casacos que existia sob uma das escadas. Nesse armário ele foi surpreendido pela morte súbita. Ataque fulminante. Tinha trinta anos, o coitado. Mariazinha enterrou Fernando e, dez meses depois, casou-se com Olegário Pinto de Meneses, outro paulistano riquíssimo, dono de quase todos os prédios da Rua Direita, no velho centro. Foram morar na Casa dos Cravos. Ela não queria, mas ele insistiu. Não se passaram dois anos e Olegário também morreu no casarão. Um prego enferrujado no pé, veio a infecção, a febre das vinte e quatro horas, tudo se acabou assim. Na missa de sétimo dia de Olegário, Mariazinha foi apresentada ao Dr. Felício Assis Pacheco, jovem médico cirurgião da Santa Casa de Misericórdia. Dois ou três meses depois, tornaram-se amantes. Ele era casado com uma tal Tereza, muito religiosa, muito servil, e tinha quatro filhos homens. A paixão proibida durou cinco anos. A paulicéia toda sabia do caso. Belo dia, bem diante da Casa dos Cravos, o vigoroso Dr. Felício foi atropelado por um bonde. Logo avisaram Mariazinha, mas ela não quis ver o corpo. Correu até a cozinha, tomou um copo de orchata com formicida. A dose do veneno era pequena, Mariazinha sobreviveu, embora tenha ficado com a voz desafinada e rascante. Mesmo assim, Mariazinha arrumou um bom marido: o advogado Cesário de Morais. Foram felizes por três anos. Reformaram o interior do casarão, construíram banheiros novos, uma nova cozinha e um encantador jardim de inverno. Para infelicidade da esposa, Cesário de Morais meteu-se em negócios estranhos, perdeu sua fortuna e deu-se um tiro na boca. O corpo foi encontrado no jardim, às cinco da tarde, entre o canteiro de cravos brancos e o canteiro de cravos vermelhos. Mariazinha colocou o casarão à venda. Aos libaneses que se interessaram pelo imóvel, ela disse: "Esta casa é linda, cheia de luz e de vida. Fui muito feliz aqui dentro. Decidi vender, simplesmente porque sou sozinha e a casa tornou-se grande demais. Facilito o pagamento, aceito promissórias, deixo toda a mobília, a cozinha montada, os cristais e o piano de cauda."
Escrito por Dennis D. : 10h15

[ ]
... (O Sistema de Comentários está ativo, embora o número permaneça invisível - sabe-se lá o motivo - mas clicando dentro das chaves é possível ter acesso à janela, ler e enviar)/ (Deseja enviar um email? Clique Aqui!)
|