Nunca, jamais / Dennis D.
Nesta vida, Manolo, eu já vi amostras de quase todas as vilanias, amostras de quase todas as mazelas. Vi gente que vendeu a honra para o Capeta em troca de trinta dinheiros paraguaios (e ainda ofereceu o coração e a consciência como brindes); vi mãe roubar o namorado da filha; vi filho arrumar vagabundas para o pai, e cobrar caro pela gigolotagem; vi marido e mulher cornearem-se sob mútuo consentimento; vi uma fulana divorciada que entregou a guarda do próprio filho para a ex-sogra, a fim de contentar um jovem amante arrumado há poucos meses; vi a inveja a urdir todo tipo de trama destrutiva, traiçoeira, cruel; vi covardes a usar inocentes como escudo; vi abusos morais e físicos; vi inumeráveis estelionatos artísticos; vi religiosidade de conveniência; vi preciosismo no sadismo; vi as mais abjetas formas de subserviência; vi assassinatos graduais; vi lentíssimos suicídios; vi júbilo despudorado diante da morte; vi o ódio escondido atrás de um sorriso; vi a sombra fantasiada de luz; vi injustiças que despedaçam nervos, vi a corrosão deixada por uma calúnia; vi a impotência absoluta diante das afrontas; vi a negação de todos os princípios, a negação da fé, a negação da própria origem; vi a indiferença mais criminosa; vi a omissão; vi a burocracia no amor; vi a desesperança. Já vi o diabo, neste mundo. Só não vi, Manolito, gente de esquerda arrumando as malas e mudando-se alegre, voluntária e definitivamente para Havana. Nem em sonho. Nem com porre de vermute.
Escrito por Dennis D. : 14h41

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