Meus sete anos / Dennis D.
Ela me atormentava, porque me amava. Falo de Arlette, minha primeira namorada. Um dia esfreguei chocolate derretido nas perninhas finas dela, e gritei: “Ela fez nas calças! Ela fez nas calças!” Arlette chorou oceanos. Depois chorei eu, de remorso, de pena, em casa, escondido de todos e de mim mesmo.
Escrito por Dennis D. : 08h08

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Norma Liz e Paulino
Cara de esfinge egípcia, avental amarrado na cintura, Norma Liz foi acordar o marido: “Acho bom levantar dessa cama, Paulino, porque vou servir o almoço daqui a dez minutos.” Quando já ia saindo do quarto, anunciou: “Fiz estrogonofe”. Nunca, num almoço de domingo, aquela gente comeu tão bem. Sobrou uma colher de arroz branco no fundo da tigela, nada mais. Jester e Janini, os filhos adolescentes, elogiaram o estrogonofe de Norma Liz. Paulino não disse nada, mas pensou “Foi o melhor estrogonofe de frango que eu já comi nesta vida. Até que a vaca cozinha bem”. Então apanhou o jornal e foi ler na varanda dos fundos. Distraído, custou a perceber o silêncio absoluto em suas trinta e oito gaiolas de canários premiados.
Escrito por Dennis D. : 07h43

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Nunca, jamais / Dennis D.
Nesta vida, Manolo, eu já vi amostras de quase todas as vilanias, amostras de quase todas as mazelas. Vi gente que vendeu a honra para o Capeta em troca de trinta dinheiros paraguaios (e ainda ofereceu o coração e a consciência como brindes); vi mãe roubar o namorado da filha; vi filho arrumar vagabundas para o pai, e cobrar caro pela gigolotagem; vi marido e mulher cornearem-se sob mútuo consentimento; vi uma fulana divorciada que entregou a guarda do próprio filho para a ex-sogra, a fim de contentar um jovem amante arrumado há poucos meses; vi a inveja a urdir todo tipo de trama destrutiva, traiçoeira, cruel; vi covardes a usar inocentes como escudo; vi abusos morais e físicos; vi inumeráveis estelionatos artísticos; vi religiosidade de conveniência; vi preciosismo no sadismo; vi as mais abjetas formas de subserviência; vi assassinatos graduais; vi lentíssimos suicídios; vi júbilo despudorado diante da morte; vi o ódio escondido atrás de um sorriso; vi a sombra fantasiada de luz; vi injustiças que despedaçam nervos, vi a corrosão deixada por uma calúnia; vi a impotência absoluta diante das afrontas; vi a negação de todos os princípios, a negação da fé, a negação da própria origem; vi a indiferença mais criminosa; vi a omissão; vi a burocracia no amor; vi a desesperança. Já vi o diabo, neste mundo. Só não vi, Manolito, gente de esquerda arrumando as malas e mudando-se alegre, voluntária e definitivamente para Havana. Nem em sonho. Nem com porre de vermute.
Escrito por Dennis D. : 14h41

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O que passou, passou / Dennis D.
Teso e contrariado ao miolo dos ossos, Jorge Antunes sentou-se diante do psiquiatra. “Lamento tomar o seu tempo em vão, doutor. Vim até aqui apenas para sossegar a Martinha, minha mulher. Sou homem vivido, reto de caráter, tive uma infância difícil, sempre pensaram o pior de mim, nunca me facilitaram coisa alguma em tempo algum, mas – com muita coragem e perseverança - superei toda aquela desgraça e segui em frente. Hoje, doutor, eu acordo e durmo sem pensar naquela gente pustulenta, naquela corja que merece se arrastar na escuridão eterna, sem os pés, sem as mãos e sem a língua, bebendo urina de cadáveres e comendo vísceras putrefatas de cachorros atropelados. O que passou, passou. A vida é o hoje, é o agora. A vida é o que se vê, o que se toca, não o que se imagina. Concorda comigo, doutor?”
O psiquiatra parou de desenhar aranhas e sorriu.
Escrito por Dennis D. : 09h03

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