O rapaz / Dennis D.
Sentado sobre as palmas das mãos, o rapaz começou a falar. Ele tinha os lábios muito pálidos e um leve prognatismo mandibular. A sua voz era agradável, mas de modulação hipnótica.
O discurso estava entre uma confissão resignada e um libelo contra o seu próprio destino.
“Quebrei a mão na cama, dormindo; quase morri engasgado com uma simples goma Valda; tenho o indicador da mão direita torto para o lado esquerdo; meu segundo nome é Tércio; minha primeira namorada foi a quinta namorada do meu irmão mais novo; nunca soltei pipa; nunca rodei peão; nunca bebi água da chuva; nunca brinquei de tinta invisível; a minha cor preferida é o branco, que nem é cor; não posso comer nada que tenha coco e nada que tenha nozes; não gosto de leite condensado; não posso usar vinagre na salada, porque o vinagre me deixa rouco, fui assaltado três vezes no Play Center; já me perdi na Serra de Paranapiacaba, ninguém percebeu, acabei achando o caminho de volta, depois de nove horas, seguindo um cachorro que andava de lado; tenho uma marca funda no braço direito, porque me aplicaram uma vacina que arruinou; um ladrão já invadiu o meu quarto, mas não quis levar nada; fui liberado do exército, mas meu pai falou com um coronel amigo dele e o cara anulou a minha liberação; vi uma pomba em cima de uma cueca que eu tinha deixado pra secar no peitoril da janela do meu quarto, espantei a pomba, mas ela largou um monte piolhos na cueca, só percebi depois; já encontrei um pedaço de vidro verde dentro de uma broa de milho comprada numa padaria da Mooca; já levei quatro pontos no lábio superior, porque bebi café numa xícara que estava trincada; sem querer, a minha professora de inglês já passou com o carro em cima do meu pé, e eu perdi a unha do dedão, que depois cresceu de novo; já me levaram a um centro espírita, mas eu tive acesso de tosse e fui convidado a sair. Fiquei quase três horas sentado num banco sem encosto, do lado de fora do Centro, passando frio; o meu irmão já me acusou de ter roubado uma caixa inteira de camisinhas (?!?), meu pai acreditou nele, falaram para todo mundo, e, depois de dois dias, acharam todas as camisinhas debaixo do colchão da minha avó, que está com princípio de Alzheimer; fui ao supermercado comprar um tubinho de Super Bonder e uma coca de dois litros, acabei levando um choque elétrico na geladeira de refrigerantes, desmaiei e quiseram me levar para o pronto-socorro de Guaianazes, mas aí faltou luz no supermercado e acabaram me liberando, sem a coca dois litros e sem o Super Bonder. Não vou contar o que aconteceu nesta semana, porque me dá vontade de morrer. Preciso contar?”.
“Não precisa, não”, eu disse. Sou irremediavelmente viciado em duplas negativas.
Escrito por Dennis D. : 11h40

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Cigarettes And Chocolate Milk / Dennis D.
Manolo eu lhe suplico: não me chame mais de ‘autêntico’. Não sou isso, nunca fui e nunca serei. Como poderia eu ser ‘autêntico’, se ainda nem me conheço direito? Pare de cheirar Ki-Suco, Manolo, não delire.
Além do mais, meu caro missivista eletrônico, sempre que se diz que uma pessoa é ‘autêntica’, pimba! — a criatura é cafona. Todo ser humano ‘autêntico’ é cafona, Manolo, pode anotar aí no seu bloquinho de aforismos surrupiados dos e-mails do Dennis. Digo-lhe ainda: os macacos, os cães, os gatos, as galhinhas, os peixes, as lagartixas, todos os bichos sem título de eleitor, apenas eles conseguem ser autênticos e permanecer isentos de cafonice. Segurou uma flatulência, reprimiu um arroto, mentiu para não ofender, suavizou para não chocar, enfeitou para impressionar — lá se foi a tal autenticidade, se é que um dia tenha existido.
E outra coisa mais, Manolo: evite reproduzir essa penca de adjetivos e de frases feitas que vive pendurada na boca do povo que curte MPB nos botecos da Vila Madalena. Evite chamar mulheres de ‘guerreiras’, por exemplo. Tente não repetir chatices terminológicas como ‘música-raíz’, ‘cultura-raiz’, ‘ação afirmativa’ e outros lero-leros.
Não queira cultuar o politicamente correto, Manolo. Toda criatura que se diz politicamente correta é hipócrita. Hipócrita e cafona, porque estas duas coisas acabam juntas e infelizes para sempre.
Vamos agora àquela indagação que você me faz a respeito dos homens que vivem de bermudas pelas ruas e shoppings de São Paulo. Sim, Manolo, creio que exista, sim, um limite de idade para o homem civilizado se vestir desse modo fora das cidades balneárias, estâncias climáticas e hidrominerais: vinte anos, talvez um pouquinho mais. Acima desta idade, convém que homens usem calças compridas e procurem reduzir gradualmente o uso de tênis e chinelas até chegar ao zero absoluto.
No caso das mulheres (você não perguntou, mas eu digo mesmo assim), se elas forem do tipo atlético-esportivo-natureba, bem, essas nem existem para mim. Quero distância de mulheres com cheiro de jogador de futebol em final de partida — como aquela sua ex-namorada, a Teka, ou Tika, sei lá. Aquela que amassava latinhas de cerveja nas axilas. Lembrou-se dela, Manolo? Ela era uma autêntica guerreira, uma ecologista vigorosa, uma ativista do politicamente correto, uma racianista de dar nojo. Agora, Manolo, tente apagar de sua mente a triste imagem de Teka ou Tika. Será melhor para o seu equilíbrio psicossomático.
... Finalizo com um agradecimento.
Muito obrigado por enviar as entradas para a apresentação de Rufus Wainwright (que decididamente não é cafona). Sim, certamente estarei lá. Quero muito ouvir ‘Cigarettes And Chocolate Milk’ ao vivo, se a canção estiver no programa, é claro.
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Ouça a bela Cigarettes And Chocolate Milk
Escrito por Dennis D. : 12h11

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Abomináveis e insuportáveis / Dennis D.
Em catorze categorias principais (as subcategorias são inumeráveis), aqui estão, Manolo, os tipos de seres humanos que eu considero verdadeiramente abomináveis e insuportáveis:
· Os barulhentos
· Os invasivos
· Os ‘superalegres’
· Os falastrões
· Os arrogantes
· Os mentirosos
· Os pedantes
· Os omissos
· Os covardes
· Os corruptores
· Os corruptos
· Os ladrões
· Os hipócritas
· Os jornalistas chapa-branca
Em tempo: no quesito ‘Credulidade Master’, Manolo, você é campeoníssimo. Sim, criatura, você acredita ter mesmo 469 amigos. E ainda oferece a ‘prova’, ao exibir o seu perfil no Orkut. Por isso, entre outras coisinhas tristes, é que Lula continua a fazer os discursos que faz. Lula, aliás, é o Baron Münchhausen que os brasileiros fizeram por merecer.
Escrito por Dennis D. : 11h44

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