Quando rapaz potrito, conheci uma linda devassa chamada Stelinha. Ela morava no segundo ou no terceiro andar de um prédio localizado lá na esquina da Matias Aires com a Rua da Consolação.
Stelinha, morena de cabelos longos, se dizia secretária bilíngüe. Modestíssima, Stelinha era, no mínimo, polilíngüe fluente.
Lembro-me de que ela tinha um namorado, homem pequeno, desses poetas que penduram seus versos em varais esticados nas praças. O sujeito se considerava um novo Arthur Rimbaud (se bem que Rimbaud não pendurava poemas em varais, que eu saiba), um Rimbaud nascido em Pirassununga, “berço natal da grande atriz Cacilda Becker” – como o sujeito fazia questão de informar.
Agora vou saltar para o miolo do assunto. Todo mundo comia Stelinha e, vez ou outra, Rimbaudzinho fazia questão de assistir (bem de perto) às longas sessões de infidelidade da namorada. Ele era gay por vias indiretas, por vias secundárias e terciárias, se bem me entendem. Oficialmente, era um apenas um namorado liberal que havia superado todo e qualquer sentimento de posse. Reter é sofrer, dizem.
Passados tantos anos, eu me pergunto: quantas vezes se teria repetido aquela mesma cena? Stelinha polilíngüe, ali, com a boca cheia e Rimbaudzinho, todo catito, a dizer versos em seu francês de Pirassununga: “Elle est retouvée! Quoi? - L' éternité. C'est la mer mêlée au soleil." Enquanto Rimbaudzinho se deliciava com la mer mêlée au soleil, Stelinha tatuava seu nome na memória de incontáveis señoritos.