O bandoneonista / Dennis D.
Caminhando pela Avenida Rivadavia, vi o velho bandoneonista que se faz passar por cego para ganar unos pessitos, o puto, pobre puto, doce cretino, miserável puto, cínico, belo, orgulhoso de sua barba branca bem aparada, de seu anel de rubi, de seu negro bandoneón que se chama Carlito.
Escrito por Dennis D. : 08h48

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Reflexões rabugentas num domingo qualquer / Dennis D.
Apesar de muito bem treinado, e ainda relativamente bem polido, não sou uma criatura sociável. Não sou mesmo. Digo sociável no que se refere aos amenos e festivos contatos humanos diretos. Sou um bicho que se esconde na toca, que fecha cortinas em dias de muito sol, que prefere estar quieto no seu canto personalizado, fazendo suas coisinhas fora de moda e fora do contexto Brasil-Pandeiro. Aliás, o som do pandeiro me dá calafrios na uretra. Um peido me parece mais afinado do que um pandeiro. Bem, como eu estava resmungando... O fato de eu não ser uma criatura sociável, no sentido aceito e pretendido por 95% das pessoas que caminham sobre a terra, já me causou alguns aborrecimentos. Minto, já me causou incontáveis aborrecimentos. Há muita gente que confunde este meu jeito com ‘desconsideração’, ‘menosprezo’ e até mesmo com ‘soberba’. Soberba, Dio mio! é uma coisa tão burra! Não, não se trata de nada disso. É neurose. Pura e simples neurose. De qualquer modo, acho reconfortante imaginar que não sou o único assim, e que os tão admirados J. D. Salinger e Dalton Trevisan também padecem (ou desfrutam, sei lá!) das mesmas neuras. Aliás, o mínimo que se diz do Dalton, por exemplo, é que ele é enigmático. ‘Enigmático’ que deve ser lido como ‘diferente do que as pessoas acham apropriado a um escritor ou a um homem moderno e civilizado’. Bah! — o que se agüenta neste mundo cheio de filisteus caga-regras!
Continuando... Meus parentes e amigos mais antigos foram delicadamente obrigados a aceitar o meu neurótico jeito de ser. Quando eu apareço em uma festinha, nossa! causo espanto geral. “Ele veio! Ele veio! Que coisa!” Pois é. Assim são as coisas. E saibam vocês que nem sempre eu fui assim. Eu costumava ser muitíssimo sociável, um verdadeiro príncipe-diplomata, mas isso foi há anos perdidos. Salingerei-me e trevisanerei-me desde o começo deste novo século. Coisas da vida, coisas que vão acontecendo dentro de nós e não se controla — ou melhor, que já não se tem motivos para controlar. Acho que estou ficando velho mais depressa do que imaginava, se não na aparência, ao menos nas manias, nas rabugices e nos sentimentos de cínica contemplação da vida. Velho, para mim, não é palavra pejorativa. Juventude (está mais do que provado) é um período de intensa infelicidade, arrogância e cegueira. Juventude, felizmente, é doença que —quando não mata — vai embora sozinha. Que bom que assim é! Envelhecer talvez seja este gradual servir-se do precioso direito de mandar na própria vida. Se não for isto, deve ser algo parecido. É o que me consola e apraz. Há mais a dizer, mas direi noutra hora.
Escrito por Dennis D. : 10h35

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