As poderosas coxas de Sócrates / Dennis D.
Olimpíadas são sempre chatíssimas. Esporte, do atletismo ao cuspe à distância, é coisa irrelevante. Esporte é brincadeira antiga, que a Humanidade pratica desde o tempo da bola de pedra quadrada, e nunca serviu para aprimorar o mundo, nunca evitou guerras, nunca fez com que o homem aprendesse a pensar melhor. Esporte é bom mesmo para quem o explora comercialmente, para quem enriquece a custa dele, sem fazer força, sem suar, sem feder, sem dilatar as veias do pescoço ou do rabo. Os magnatas do esporte são sempre prósperos senhores barrigudos e os atletas são sempre aqueles "heróis" que chegam aos quarenta com carinha de múmia egípcia e miolos de um rapaz de dezessete, isto quando não detonam o próprio corpo, de forma irreversível, antes dos trinta.
Marx errou feio ao dizer que a religião é o ópio do povo. O esporte é o ópio do povo! Se Madame Curie tivesse sido uma dessas ginastas de bunda empinada, certamente não lhe deveríamos a importante descoberta do radium. Se Thomas Alva Edison tivesse sido um maratonista, ainda estaríamos iluminando a nossa casa com velas de cera ou lampiões a querosene. Se Alexander Fleming tivesse sido um intrépido velejador... neca de penicilina, a mamãe de todos os antibióticos. E se Bach, Mozart e Brahms tivessem trocado a música pela natação ou pelo salto com vara? Dio mio! O que estaríamos escutando em nossas melhores salas de concerto? A Sinfonia das Bufas? E se William Shakespeare, Marcel Proust e Machado de Assis tivessem preferido se dedicar à canoagem ou à patinação artística no gelo, hein???
Acho melhor eu parar, porque me veio à mente a perturbadora cena de um jovem Sócrates dizendo ao seu pai: “Não, papai Sofroniscus, eu não quero mais estudar literatura ou música, que são coisas de viadinhos. Quero fortalecer as pernas e tornar-me o melhor corredor lá nos Grandes Jogos de Olímpia. Serei um atleta famoso, papai, e minhas poderosas coxas, eternizadas em mármore, servirão de inspiração a jovens atletas do mundo inteiro, ao longo de séculos e séculos e séculos e séculos e séculos e blá e blá e blá...”
Escrito por Dennis D. : 00h05

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