Os banhos do Sr. Acepipes / Dennis D.
Sentado à sua mesa de linhas ultramodernas, e com o rosto dissolvido pela contraluz da vidraça, o médico falou ao Sr. Acepipes: “Recomendo-lhe demorados banhos de imersão em água morna, todos os dias, a fim de favorecer a eliminação dos cristais de Elmmer que estão depositados em sua bexiga. Durante esses banhos, o senhor deverá beber de dois a três litros de água mineral sem gás. Retenha a urina até sair do banho, mesmo que isto lhe cause um certo desconforto. Prefira urinar sentado para obter um esvaziamento pleno.”

O Sr. Acepipes anotou mentalmente as ordens do doutor, despediu-se e foi diretamente à farmácia mais próxima, onde gastou trezentos e trinta dinheiros na compra dos medicamentos prescritos. Havia, inclusive, misteriosos comprimidos (caríssimos) de nome impronunciável: “Arbixosthirtelophenoleatina”, que deveriam ser tomados antes das refeições principais.
Obviamente, o Sr. Acepipes não compreendera direito as explicações dadas pelo médico, no que se referia ao surgimento dos terríveis cristais de Elmmer. O nome era elegante: “cristais de Elmmer”. Quem, dentre os familiares e conhecidos do Sr. Acepipes, tivera a bexiga carregada desses aristocráticos cristais? Ninguém, que ele soubesse. No escritório, no clube, no Cabaré da Solange, no Bar do Lobato, o Sr. Acepipes poderia mencionar seus cristais e se deliciar com a cara de espanto de toda a gente.
Os banhos de imersão eram relaxantes. Duravam pelo menos noventa minutos. Tempo suficiente para o Sr. Acepipes pensar na vida, na morte, nos seus amores perdidos, nos vícios humanos, na moral hipócrita da sociedade, no preço absurdo do sinal da televisão a cabo, entre outras tantas coisas, de maior ou menor importância. E foi durante um desses banhos terapêuticos que o Sr. Acepipes se deu conta do que fizera consigo mesmo: do desprezo com que tratara o próprio corpo; do visual desleixado com o qual se apresentava; do estado precário de seus dentes; de como estavam foscas e escuras as unhas dos seus pés; do ventre dilatado e flácido; dos pêlos duros que lhe saíam pelos furos das orelhas e das narinas... Era preciso mudar radicalmente, pensou o Sr. Acepipes. Sim, ele iria começar um regime, ainda naquela semana. Marcaria consulta com uma dermatologista, faria uma visita ao salão de beleza da amiga Dorinha, e mais isso e mais aquilo, tudo o que fosse necessário para que sua aparência melhorasse uns mil por cento. E ela haveria de melhorar, mesmo que o preço fosse alto. “Dinheiro vai, dinheiro vem” — pensou ele — “o tempo perdido é que nunca volta!”
O Sr. Acepipes sorriu, secretamente grato aos seus elegantes cristais de Elmmer. Não fossem eles, jamais pensaria em tomar os demorados banhos de imersão, muito menos teria tido sossego e tempo para enxergar a si mesmo de forma tão realista.
Quinze minutos depois, sobre a pia do banheiro, o pequeno despertador entrou em ação. Já se haviam passado os noventa minutos destinados ao banho. O som da campainha foi morrendo aos poucos, até silenciar de vez. Na banheira, o Sr. Acepipes estava igualmente silencioso, não por culpa dos seus cristais de Elmmer, mas simplesmente porque a morte não se comove com alegres projetinhos de reforma de vida.
Escrito por Dennis D. : 08h53

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