Meu pé direito e o novo Dom Casmurro / Dennis D.
# Estava demorando; os céus eletrificados prenunciavam a tempestade; a visão periférica já enxergava o magrelo espectro do Sr. Cavalo, uma infeliz entidade que se compraz em atormentar gente limpinha. Ouviu-se, então, a grande trovoada e a coisa aconteceu: entorse novinho em folha, desta vez no pé direito. Adianta protestar? Adianta resmungar que eu poderia perfeitamente ter fechado o ano sem esta chatice? Não, não adianta. Trata-se, é claro, de uma mensagem do meu (ou do nosso) inconsciente. O chute macabro do Sr. Cavalo foi meramente a materialização dessa mensagem ainda não decifrada. Uma lesão repentina, de qualquer forma, sempre nos traz aquela sensação de que alguma fatura invisível foi devidamente paga. Meno male.
# Os ossinhos de Machado de Assis trincaram na tumba, quando foi exibida a nova versão televisiva de Dom Casmurro. Sim, sim, muito bonita plasticamente, mas quem esperava reconhecer os tão queridos personagens, frustrou-se de cabo a rabicó. Aquilo me pareceu pura imitação de Federico Fellini, misturado à imitação de Ingmar Bergman, misturado à imitação de Nelson Rodrigues na primeira montagem de O Vestido de Noiva. Apenas imitação. Ah, sim, Dom Casmurro parecia uma mistura de o Corcunda de Notre Dame com Nosferatu e com a bruxa disney que ofereceu maçãs a Branca de Neve. Prefiro não assistir ao que resta daquele Dom Casmurro, ainda que a fotografia possa ser maravilhosa. O meu Dom Casmurro mental deve ser preservado tal como o imaginei. E ponto.

Escrito por Dennis D. : 09h57

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