Cem dinheiros / Dennis D.
Com fingimento de amor, súplicas e gemidos estereofônicos, custaria oitenta dinheiros; sem fingimento e sem som algum, cinqüenta dinheiros. Ele, o fauno senil, quis o serviço de luxo e já foi colocando uma nota de cem no miolo da rosa quase negra de tão rubra, quase viva, quase colombiana, quase a despencar do vasinho magro. Esperou, então, que a puta fatigada saísse da água, para ver os pêlos gotejantes e os mamilos rodeados de pontos de luz. E viu tudo isso. Sorriu, até, de tão satisfeito. Ela quis apanhar uma toalha, mas ele não deixou. Ela quis espremer os cabelos com as mãos, mas ele lhe deu um tapa no antebraço. Apareceram marcas vermelhas, porque a pele dela era incrivelmente branca e sensível, daquelas peles em que se pode escrever qualquer palavra com a unha, de leve, e a palavra leva tempo até se desvanecer. Ele apontou a nota de cem dinheiros enfiada no miolo da rosa. Foi uma advertência. “Cem dinheiros são cem dinheiros”, ele parecia dizer com os olhos espremidos, que eram olhos de um demônio meio bêbado ou meio doido. Em outros tempos, ela teria mandado que ele enfiasse aqueles cem dinheiros no meio do cu. Ao tapa, teria respondido com socos e pontapés. Nos tempos de agora, entretanto, qualquer dinheiro compensava as eventuais injúrias, fossem estas verbais ou físicas. O fauno senil estava com o diabo no corpo. Pediu que ela abrisse a bunda com as mãos. “Abre! Abre a bundona! Abre! Quero examinar o rabinho!”, ordenou. Ela abriu a bunda e ele exclamou: “Muito bem! Cu-estrela bem rosado. Parabéns!” Ele continuou sentado, atento, e ela naquela posição incômoda. O fauno apanhou um canivete e começou a descascar uma laranja-lima. “Ei, não se mexa! Eu quero saborear esta laranja e contemplar o seu belíssimo cu-estrela!” Ela oscilou. Sentiu a cabeça em chamas. Considerou que não resistiria muito tempo daquele jeito. Pediu para ficar de pé, mas ele disse: “Ainda, não! Já expliquei que eu quero chupar esta laranja e ficar namorando o seu cu-estrela!” Rosto ardente, boca amarga, ela aspirou o aroma da laranja-lima. Escutou os ruídos que o fauno senil fazia ao sugar, mastigar e engolir os nacos da fruta. De repente, ela estremeceu quando um frio respingo de sumo atingiu-lhe diretamente o sexo. “Posso me levantar, querido? Posso me levantar um pouquinho só?”, suplicou. Ele não respondeu. Ela abriu os olhos e espiou. A cena estava de cabeça para baixo, mas deu para perceber tudo com nitidez, uma coisa de cada vez, em seqüência: o canivete pousado naquele joelho direito, os dedos nodosos a segurar a dentadura postiça, o cano escuro do revólver metido naquela boca murcha, a explosão infernal e, por fim, a chuva quente que desabou sobre suas costas nuas e sobre todas as coisas daquele quarto. ... Ela sempre soube que as coisas deste mundo não fazem sentido senão para Deus e para o Diabo. Deus é a laranja-lima perfumada, e o Diabo é o cu-estrela que se arreganha por cem dinheiros enfiados dentro de uma rosa quase viva. O resto não importa; o resto é filosofia de botequim.
Escrito por Dennis D. : 19h54

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