Ela diz... / Dennis D.
Ela diz que o seu doce preferido é o éclair turco, recheado de damasco e coberto com uma calda de limão imaturo, cujo PH deve estar próximo a zero, ou seja, carga máxima de acidez. Eu escuto aquilo e começo a salivar de aflição. Ela suspira e, do nada e para nada, comenta que o Muro das Lamentações é salgado, que sabe disso porque o lambeu, às três horas de uma madrugada fria, depois de ter saído pelos fundos do Crowne Plaza Jerusalém travestida de homem e acompanhada por um espertíssimo menino-guia chamado Ibrahim David. Eu quero comentar algo, mas ela me atropela com uma longa dissertação a respeito dos vinhos da Madeira e das “famosas” parras de Malvasias. Nada disso me interessa, mas tento acompanhar aqueles infindáveis quilômetros de conversa chata. Mantenho os meus 20% de um sorriso, o que se traduz como fisionomia atenta e amável. Mais do que isso não consigo fazer. Misteriosamente, ela muda de assunto. O novo tema são os grandes teatros do mundo, a começar do Alla Scala, onde ela diz que teve o “privilégio” de beijar a alça do penico de porcelana que Maria Calas, sempre entupida de diuréticos, usava para urinar imediatamente antes de cada entrada em cena... Eu suspiro. Nesse ponto, ela faz uma pausa para beber dois goles d'água. Resolvo, então, contar que, aos vinte anos, quando entrei pela primeira vez no Teatro Colón, tive um treco que poderia ser definido como experiência mística. O cheiro do lugar, as chispas de luz nos polidos mármores de verona, o ectoplasma que escorria pelas paredes do Salón Dorado, sei lá o que mais, levaram-me a um estado de torpor mediúnico, no qual eu... Ela me interrompe com uma dupla afirmativa — “sei, sei” — e, como se minha história tivesse chegado ao fim, introduz uma nova narrativa: os vultos espectrais que ela teria visto nos corredores do Palácio dos Seteais, em Sintra. Eu desisto de falar e desisto de ouvir. Ela venceu. Mantenho, agora, 10% de um sorriso e começo a escrever mentalmente um conto a respeito de uma mulher alta, magra, rica e divorciada chamada Bruna, que se masturba compulsivamente com o som da própria voz, sem jamais chegar ao gozo, porque deus é justo; uma mulher que se ufana de ter beijado a alça do penico de Maria Calas; uma mulher que parece suplicar: “Mate-me, pelo amor de deus! Faça-me essa caridade!”
Escrito por Dennis D. : 13h06

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Convite aos amigos-leitores / Dennis D.
No dia 8 de março, às 19h, apresentação de estréia do curta-metragem Motivo Fútil e Torpe, baseado em meu conto homônimo. O local da exibição será a sala de cinema do Centro Cultural Olido, na Galeria Olido, totalmente restaurada/reformulada pela Prefeitura de São Paulo. Basta chegar um pouco antes e retirar o convite na bilheteria. Entrada franca, meus amigos-leitores. Av. São João, 473 - 19 h - Centro - São Paulo.

Escrito por Dennis D. : 02h21

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