As Cartas / Dennis D.
Todas as semanas, ao correr de dez anos, Paulo recebia uma carta anônima terrível. A carta era deixada na soleira da porta de entrada e, por mais que todos estivessem vigiando, não conseguiam apanhar o missivista dos Infernos. As primeiras mensagens infames ele mostrou à mulher, depois não teve mais coragem; guardava os insultos num canto escuro do coração, queimava as páginas e os envelopes. De tudo fora chamado, nada em sua vida escapava da crítica feroz do missivista covarde. A paternidade dos três filhos fora atribuída a três homens que frequentavam a casa de Paulo. A mulher era sempre acusada de vadiar com todos os machos do bairro, inclusive com os galetos de buço macio — principalmente nas horas em que ele, o “marido corno”, estava enfurnado no escritório da imobiliária, suando em bicas para sustentar a família. A mulher dizia: “Não liga pra esse monte de lixo, Paulinho! É inveja, meu amor!” Mas ele ligava, ele sofria, ele se despedaçava de indignação. Um dia, Paulo chegou do escritório duas horas mais cedo. Veio com uma dúzia de rosas nos braços, para surpreender a mulherzinha aniversariante. A mulher estava de costas, sentada à mesa da Sala de Jantar, escrevendo mais uma carta maldita. Paulo reconheceu o papel, a caligrafia em garranchos, o envelope com o barrado paulistinha. Num sobressalto, ela se debruçou sobre a carta e virou a cabeça. Viu apenas um sinuoso rastro de rosas e escutou a batida seca da porta.
Escrito por Dennis D. : 21h09

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Tetas de Marzipã / Dennis D.
Aos oito anos, Rebeca derramou um copo de groselha na calcinha e, fingindo desespero, foi pedir socorro à cozinheira. “Malvina! Me acuda que eu menstruei agorinha mesmo!” A pobre mulher, que morria de medo da menina, disse que não tinha tempo para brincadeiras. Continuou a fritar bifes. No dia seguinte, Rebeca meteu coisas debaixo do vestido e disse à mãe que fora abusada inúmeras vezes pelo marido da professora, aquele homem bonito que vivia a sorrir. “Agora não dá mais para esconder minha desgraça, mamãe. Estou grávida de sete meses!" Passados dois dias, Rebeca urinou na cama, propositalmente, para fingir que a bolsa d'água se havia rompido. Correu a se deitar no chão frio do banheiro e ficou ali a imaginar que estava no Hospital Albert Einstein, cercada pelos membros de uma equipe médica elegantíssima, que falava apenas em inglês e pensava em alemão com sotaque de Berlim.
O parto durou longos doze minutos. A enfermeira Rosamund sorriu para Rebeca e entregou-lhe os filhos gêmeos. O menino era louro, gordinho, tinha olhos rosa-fúcsia. A menina, magra como um esqueleto de tatu, tinha a pele da cor das sombras das árvores mortas e os olhos cinzentos, frios, lacrimejantes. Rebeca disse à enfermeira que os seus filhos seriam batizados com os nomes de Sonho e Desilusão. A enfermeira achou que eram nomes muito apropriados e apontou o ombro do bebezinho macho: “Veja essas pequenas marcas de mordida... Foi ela, a irmãzinha, quem as fez, num minutinho em que deixamos os dois lado a lado! Ela nasceu com dentinhos afiados, dentinhos de cobra!” Rebeca não se espantou. Sentiu um pouquinho de pena do destino de seu filho Sonho. Ele cresceria sendo torturado pela irmã. Não havia escapatória. A piedade de Rebeca durou trinta segundos. Ela, então, olhou para a sombria Desilusão, recém-eleita sua predileta, e imaginou-se moldando duas lindas tetas de marzipã, gordas e doces, com as quais amamentaria a menininha voraz. Sonho sorriu, mas Rebeca não se comoveu. Deixou-o de lado; estava muito gordo aquele bolo-fofo patético. Ele precisava perder peso, o nojentinho. Desilusão rosnou suavemente, quando os dedos de Rebeca começaram a acariciar-lhe a mirrada e calva cabecinha de tatu. ___________
Esta minha composição, Brincadeira Para Dois Pianos, parece bem divertida, mas é difícil pra caramba de tocar. Não dá para se distrair nem por 1 segundo, que você perde o compasso e tudo vai direto para o vinagre. Ou seja, uma brincadeira musical malvada, haha! Se quiser ouvir, CLIQUE AQUI.
Escrito por Dennis D. : 09h51

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