Felícia Felix / Dennis D.
Felícia Felix estava tão triste, tão desamparada, que ergueu a mão e tocou as nuvens cinzentas. As nuvens correram frias pelos seus dedos e, não demorou, veio uma chuva derramada em silêncio, sem ventanias, sem trovoadas. Ela abaixou a cabeça e ficou sentindo a chuva a cair nos cabelos e na nuca. Depois, também sentia o riacho escorregando pelas costas, fazendo o tecido da blusa grudar na pele. Ali era proibido pensar em coisas deprimentes, porque aquela era a Terra da Alegria Sem Fim, a capital do Melhor dos Mundos, onde o riso eterno enlouquecia as pessoas e os prazeres intermináveis as tornavam absolutamente incapazes de perceber o significado da verdade ou da arte. Mesmo com os olhos semicerrados Felícia percebia os palhaços ao seu redor. Eram cem? Eram mil? Eles giravam em uma grande ciranda de gargalhadas, cada vez mais depressa, cada vez mais depressa, uma coisa de dar medo. Felícia, então, chorou por si mesma e chorou por eles, pelos palhaços que só sabiam gargalhar. E por viver na Terra da Alegria Sem Fim, as lágrimas da mulher triste foram pingando cada qual de uma cor diferente, cada qual com seu sabor e seu aroma: menta, morango, chocolate, abacaxi, laranja, cereja, uva e tutti-frutti. Os palhaços aplaudiram e pediram mais lágrimas coloridas. Lágrimas eram coisa que ainda desconheciam, porque ninguém ali chorava, ninguém ali era minimamente humano. Apenas Felícia havia percebido que o Melhor dos Mundos era, na verdade, o pior dos mundos, o mais triste dos mundos, o mais colorido e o mais feio dos mundos. ... 
Autumn Leaves (acompanhamento: Suitcase Electric Piano)
Escrito por Dennis D. : 22h14

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