Bloody Mary / Dennis D.
Ele estava sentado no banquinho do bar, ambos os cotovelos apoiados no balcão e a cabeça levemente inclinada para a esquerda, como fazem as aves quando estão a observar alguma coisa que as intriga. Naquele caso, ele observava a ruiva que ocupara a ponta extrema do balcão. Era uma mulher magra, ainda jovem, nem bonita e nem feia, que trazia indisfarçáveis marcas de destruição no rosto e no corpo. Possivelmente, a alma também estivesse destruída, mas isso não vinha ao caso. O bartender atendeu-a com certa familiaridade e chamou-a de Senhorita Velma Cynthia. Ela pediu outro bloody mary estupidamente gelado e começou a inventariar o conteúdo de sua bolsa prateada.
De repente, os olhos dela se encontraram com os dele e um sorriso discreto se desenhou naqueles lábios engrossados com inúmeras camadas de batom. Ele retribuiu o sorriso, mas ela logo desviou o olhar para a bolsa, onde um telefone celular emitia sons que lembravam harpas celestiais. Dando costas ao balcão, ela atendeu a chamada. Ele notou que os cabelos da Senhorita Velma Cynthia estavam presos numa espécie de coque afrouxado. Quando ela fechou o aparelho e virou-se para o bar, seu rosto estava transfigurado pela indignação. Ela fez sinal ao bartender, a fim de que este preparasse outro bloody mary. Ele pensou em se aproximar da ruiva e oferecer-lhe algumas palavras confortadoras. Começou a pensar na melhor frase para iniciar a conversa, mas não houve tempo. A Senhorita Velma Cynthia consumiu o seu segundo bloody mary, deixou uma nota de cinquenta dinheiros sobre o balcão e saiu. Ele girou o corpo no banco e acompanhou o andar vacilante da ruiva. Viu-a cruzar a porta dupla de vidro e ficar parada na calçada. Lodo depois, ela ergueu e sacudiu o braço, como se estivesse fazendo sinais para um taxi, mas não apareceu taxi algum. Também poderia estar acenando pra algum conhecido. Mais alguns minutos imóvel e a Senhorita Velma Cynthia abriu sua bolsa prateada. Ele pensou que ela fosse apanhar o celular, mas foi um pequeno revólver que apareceu na mão da ruiva. O revólver desapareceu de vista e ela se curvou para frente, como se tivesse metido o cano da arma na boca. Nesse instante, ele saltou do banco e correu em direção à porta. Saiu do bar, mas a ruiva havia desaparecido. Ao retornar, viu o bartender depositar um bloody mary diante de outra ruiva, que tomara assento no mesmíssimo lugar anteriormente ocupado pela Senhorita Velma Cynthia. Mas a ruiva não era outra, era a própria Senhorita Velma Cynthia, embora estivesse com um vestido e um penteado diferentes. O bloody mary desapareceu em menos de dois minutos. Ao perceber-se observada, ela sorriu para ele. Em seguida, ouviu-se aquele som de harpas celestiais e a ruiva atendeu a chamada do celular. Deu costas ao balcão e exibiu a nuca desnuda sob um coque alto. E quando a ruiva encerrou a ligação e voltou-se para o bar, tinha o rosto iluminado de prazer. Ela fez sinal ao bartender, que se pôs a preparar mais um bloody mary. “O seu nome é Velma Cynthia?”, ele perguntou à ruiva feliz. “Não, não. Eu me chamo Sarah Evangeline. Velma Cynthia é minha irmã mais velha. Ela vem aqui todas as quintas-feiras. Hoje é meu dia de passar por aqui: quarta-feira. De onde você conhece a Velma Cynthia? Lá do Déjà Vu Dancing Club?” Ele precisava de algum tempo. Não conseguiu responder. Suas têmporas começaram a latejar...
Escrito por Dennis D. : 15h26

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