A história de Orestes / Dennis D.
Filho parido no leito de morte de uma prostituta tuberculosa, o recém-nascido fora deixado na porta de um centro espírita, no bairro de Jaguaribe, em Campos do Jordão. João Bandeira, o presidente do tal centro, levou a criança à casa de três irmãs solteiras e ricas, D. Clarinda, D. Nina e D. Joviana, e pediu-lhes o favor de cuidar do pequenino até que lhe fosse providenciado um lar definitivo. Os meses foram correndo e as três mulheres a cuidar do enjeitadinho. Não tardou e arrumaram-lhe um registro de nascimento legalmente falso. Assim, o menino passou a se chamar Orestes Camargo, filho de Clarinda Dias Camargo, a mais jovem das três irmãs solteiras. Assim ficaram as coisas, um arranjo que transformou o menino em único herdeiro de duas grandes fazendas no Vale do Paraíba. D. Clarinda, D. Nina e D. Joviana tinham um sotaque francês. Haviam crescido, estudado e vivido em Paris durante décadas e décadas, apenas retornando ao Brasil quando morreu o pai, um certo Benedito Camargo, que já havia enterrado a esposa há anos. Coisa triste, aliás, a morte desse fazendeiro: vinha ele montado em seu cavalo Trovão, quando, ao atravessar um pasto seco, assim, do nada, um raio lhe partiu ao meio, a ele a ao pobre cavalo. As quatro partes fumegantes ficaram ali no meio do pasto seco, até a chegada do capataz. Nem chover choveu, naquele estranho dia. O menino Orestes cresceu, estudou, transformou-se num rapaz forte, bonito, elegante e que falava com erres afrancesados. Não tinha maneiras afeminadas, apesar do sotaque meio esquisito e dos modos excessivamente polidos. No dia em que fez dezoito anos, ganhou um carro de luxo e foi chamado para uma conversa séria com Tia Joviana, a mais idosa. Esta trancou a porta da biblioteca, sentou-se à escrivaninha e pediu que Orestes prestasse muita atenção no que diria a seguir. Disse, então, que ele deveria tomar muito cuidado para não perder os seus direitos hereditários, após a morte da última delas. E, balançando o dedo indicador, ela advertiu: “Um passo em falso, Orrrestes, e você irrrá perderrr tudo, tudo.” Ele quis saber o motivo daquele aviso sinistro, já que todos os seus documentos estavam aparentemente em ordem, bem como os documentos das três senhoras e a papelada das fazendas. Tia Joviana foi franca: “Não haverrrá prrroblema algum, Orrrestes, se você souberrr conduzirrr as coisas, assim como nós trrrês fizemos porrr ocasião da morrrte de papai. Chegou a horrra, meu querrrido de você saberrr porrrque, ainda crrrianças, eu, Nina e Clarrrinda fomos mandadas parrra Parrris...” Após ouvir o relato de hora e meia, um atordoado Orestes deixou a Biblioteca e foi até o armário de remédios em busca de aspirinas. Tomou três comprimidos de uma só vez, ali mesmo, sem água. Subiu ao quarto e jogou-se na poltrona de leitura. Ele acabara de saber que as queridas tias não eram tias, e sim tios. Três homens registrados e criados como mulheres, porque uma mãe demente, dias após dar à luz, capara cada um de seus bebês. O pai dos capadinhos, que não era louco, mas era excessivamente vaidoso, acobertara os crimes do único modo que julgou possível. Orestes sentiu-se grato por Tia Joviana ter revelado o segredo da família Camargo. Imaginou o quanto lhe custara fazer o relato de toda aquela atrocidade. E o fizera por amor a ele, Orestes, para que ele não viesse a perder os seus direitos de herdeiro. Agora, pelo menos, ele já estava devidamente preparado, saberia como agir, saberia como evitar problemas com médicos, com internações hospitalares e com atestados de óbito. Tudo ficara bem esclarecido. Cada detalhe fora previsto e dissecado por Tia Joviana. Ainda perplexo e com os nervos em frangalhos, Orestes fechou os olhos e submergiu num silêncio abissal. Vinte minutos depois, abriu os olhos e murmurou para si mesmo: “Puta que parrriu!” Levantou-se da poltrona e foi tocar la vie.
Escrito por Dennis D. : 09h55

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