Sonho de uma noite de São João / Dennis D.
Sonhei com meu filho, uma criança delicada, meu Branquinho de Neve que mora muito além de Estocolmo, muito além de Jasminópolis e de Perfumínia, a capital do Reino de Luzil Perol. Meu filho de olhos tristes, de pestanas longas, a obsevar gravuras coloridas num livro quase maior do que ele. Eu estava ali, mas não estava, mas era como se estivesse, porque enxergava tudo o que se passava e ouvia cada ruído mínimo, até mesmo a conversa das duas formiguinhas fulvas que tagarelavam na entrada de um túnel de caruncho do peitoril da janela. Elas diziam coisas tolas e sem importância, conversas de comadres. Os dedinhos do meu filho tocavam levemente as paisagens desenhadas pelo primoroso ilustrador Angel De La Guarda. Sobre um móvel azul celeste havia um pote de vidro com doces. “Posso pegar um desses?”, perguntei. Ele fez que sim com a cabecinha, sem levantar os olhos capturados pelas gravuras de Angel. Sentei-me ao lado dele, na cama macia. Também quis apreciar os desenhos. Ficamos bem quietos. Um relógio de parede fazia “tic”, “tic”, “tic”, “tic”. Seu pêndulo era um ratinho branco que se balançava pelo rabo. O mostrador tinha números romanos, cada qual de uma cor. E havia um único ponteiro, que girava em velocidade inconstante, ora depressa, ora bem devagar, ora em soluços, ora em tremores, como se tiritasse de frio. Eu me sentia tão feliz que me veio, de repente, uma vontade de chorar. Um choro de felicidade, sim, porque nada me faltava, naquela hora, nada eu queria, nada eu temia, nada eu esperava, nada mais eu tinha a fazer, senão me deixar existir. Alguma coisa é mais comovente do que a simplicidade? Conforme o ratinho branco se balançava no relógio, os seus olhos de rubi fechavam e abriam, e os seus bigodes de prata vibravam. Não havia mais nada para entender. Ali eu estava bem ajustado. Fora dali tudo era o avesso do Céu.
Escrito por Dennis D. : 02h26

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