Perdas totais / Dennis D.
Pobres homens construídos entre sombras e asperezas, polidos com os abrasivos sais das humilhações sem queixas, os olhos queimados pela antiluz dos pecados mal aproveitados, sol da escuridão covarde, as mãos frias, inquietas, pesadas de tanto medo, sempre controladas, sempre produzindo gestos comedidos e previsíveis, nenhum movimento além do necessário ao girar uma chave, ao apertar um botão quadrado, ao apanhar uma faca para matar ou um lápis para escrever um bilhete de três palavras. Os melhores e os mais interessantes desses pobres homens talvez já se tenham ido, levando com eles milhares de frases que não puderam ser ditas ou escritas, porque não houve tempo o bastante, ou porque tinham eles, esses pobres homens, a tola ilusão que o tempo jamais se acabaria. A terra cobriu tantos deles, sepultou-os em abismos de grãos silenciosos e de raízes úmidas. E tantos deles adormeceram para desaparecer completamente da memória dos vivos. Foi uma pena. Havia tanto a ser dito e escrito, mas eles nada disseram, nada escreveram. E deles não restou verdade alguma, nem mentiras, nem sons, nem cheiros, nem um mísero átimo de pessoalidade.
Escrito por Dennis D. : 02h00

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