Maria Antonia / Dennis D.
Ao correr de trinta longos anos, todas as noites, Maria Antonia teve em sua cama o mesmo amante ardente — um homem alto, loiro, de pernas peludas, que a visitava em sonhos, chegava e partia sem dizer uma única palavra. Certa noite, o amante onírico chegou, mas não se despiu, nem se deitou ao lado de Maria Antonia. Ficou com as mãos metidas nos bolsos da calça e, pela primeira vez, disse algumas palavras: “Muito obrigado por tudo. Esta é a última vez que nos vemos. Não se culpe, por favor. São coisas da vida. Estou embarcando num caso gay e meu parceiro se mostra sexualmente voraz. Adeus, Maria Antonia, e tente guardar boas lembranças da minha pessoa.” Daquela noite em diante, Maria Antonia só teve sonhos castos: via-se como uma velha havaiana a fabricar colares de flores; via-se como uma freirinha que descascava laranjas-lima para Santa Rosa de Lima; via-se como uma professora a alfabetizar pigmeus africanos, coisas assim. Num desses sonhos castos, caminhava Maria Antonia por uma rua estreita de Estocolmo, quando viu o ex-amante loiro a sair de uma confeitaria. Ao seu lado estava um homem jovem, moreno, atlético, que não parava de rir. De repente, o ex-amante girou a cabeça para a esquerda e seu olhar cruzou com o olhar de Maria Antonia. Ela fez um aceno delicado com a mão e ele respondeu com um sorriso e um balançar rápido da cabeça. Em seguida, os amantes entraram num carrinho elétrico e desapareceram de vista. Maria Antonia percebeu, então, que o ex-amante continuava tão jovem como no primeiro dia em que se deitaram juntos, há três décadas. E também percebeu que a fisionomia do novo amante de seu ex-amante lhe parecera ligeiramente familiar. Mas quem seria aquele jovem moreno e atlético? Quem? Veio-lhe então um clarão súbito na memória. Claro, aquele jovem era o Paulinho, filho do açougueiro! Claro que era ele! Na manhã seguinte, Maria Antonia foi ao açougue. Lá estava Paulinho a tirar pelancas de uma bela peça de Alcatra. “O que vai levar hoje, freguesa?”, ele perguntou, exibindo um sorriso de trezentos dentes cintilantes. Maria Antonia ficou alguns segundos paralisada, então retirou a mão de dentro da sacola de compras e meteu três tiros nas fuças do garotão.
______________________ Aqui eu canto Feelings
Escrito por Dennis D. : 13h05

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