A Mulata Verde / Dennis D.
Quando se olhava no espelho, fosse quando fosse, ela não via feiúra ou beleza, acertos ou desacertos nos trajes, quilos a mais ou a menos; via apenas a mulata que era e a mulata que não queria ser. Ela não gostava de negros. Faria qualquer coisa, neste mundo, para que não reparassem na sua mulatice. Olhava com inveja para o pai, branco, aloirado, olhos de céus de abril. A mãe, negra, narinas largas, olhos de meia-noite, era vista de través, sempre com rancor infinito. Clarissa; fora este o nome que a mãe escolhera para a filha. Clarissa, um nome que a filha carregava como quem leva uma cruz, uma coroa de espinhos, ou uma verruga na ponta do nariz. Clarissa, que nascera branquinha como o pai, mas depois fora escurecendo, aos poucos, semana a semana... Na faculdade, num dos primeiros dias de aula, um professor a ela se referiu como “esta nossa bela mulata dos olhos verdes”. Melhor teria feito se a tivesse chamado de vadia; ela não conseguia disfarçar o desgosto. Abandonou os cadernos sobre a cadeira e deixou a sala, soluçando. Não eram reais aqueles olhos verdes, nunca foram; os seus olhos eram de meia-noite, assim como os da mãe, mas Clarissa os cobria com lentes de contato. Muitos rapazes a queriam, mas ela só se interessava por um: Mauro, o loiro. Um dia, estava Clarissa no banheiro da faculdade, sentada no vaso, urinando e pensando em suas infelicidades, quando escutou: “Imagine se o Maurinho vai dar atenção à neguinha! Aquela menina não se enxerga mesmo! Ela usa quilos de maquiagem para clarear a pele, reparou? Que imbecil. Não assume a cor que tem. A quem ela pensa que engana, aquela macaca com cabelos de arame?” Foi na tarde seguinte, logo na primeira aula, que Clarisse apareceu usando aquele batom esquisito, verde-esmeralda. Muitos riram, mas ela não pareceu se importar. Havia até mesmo uma indefinível serenidade em sua fisionomia, como se um grande peso lhe tivesse sido retirado dos ombros. Dias depois, além do batom esmeraldino, Clarissa também resolveu usar delineador e sombra para pálpebras em tons de malva. Nos cabelos, uma rinsagem pendendo para o musgo. Ao final do mês, apareceu na faculdade totalmente vestida de verde, e até a pele do seu rosto, dos braços e das pernas parecia recoberta por uma fina camada de pó verdoengo. As meias soquete eram verdes, os sapatos eram verdes, a bolsa era verde, como eram verdes o esmalte das unhas e cada um dos cinco anéis que enfeitavam seus dedos. Mais algumas semanas e ela já ria gostosamente, fazia gracejos com os colegas, conversava longamente com os professores, mostrava-se inteligente, espirituosa e - quando lhe criticavam a exótica aparência - esgrimia certeiras ironias e dava de ombros. Chegaram as férias. Clarissa já não era vista em parte alguma. Desaparecera com seu riso e com todos os seus verdes. Garantiram que estava sob tratamento médico, metida em uma clínica, tomando medicamentos fortíssimos. Visitas não eram permitidas; a família preferia não comentar o caso. Ao reaparecer, Clarissa já não trazia consigo qualquer vestígio de verdes. Vestia uma saia preta, uma blusa acinzentada. Unhas sem esmalte, cabelos negros alisados, nenhuma maquiagem. Cheirava a água de colônia floral, bem suave, e não sorria. Calada, olhos baixos, caminhava como quem carrega um saco de batatas nas costas. Ao cruzar o grande saguão da faculdade, evitou olhar para as largas colunas espelhadas. Não suportaria a visão da mulata que era, da mulata que sempre haveria de ser. (Este conto faz parte do meu livro "O Filho do Hipnotizador e Outras Histórias de Estranhas Pessoas".) _________ Aqui, canto Something, de George Harrison
Escrito por Dennis D. : 09h18

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