O tapeceiro estofador / Dennis D.
O homem estava na mesa mais ao fundo, comendo o seu bife com arroz, a cabeça quase metida dentro do prato. Era magro, tinha o rosto envelhecido e os seus cabelos grisalhos pareciam engordurados. Teria cinquenta anos? Sessenta? Um pouco menos? É sempre difícil adivinhar a idade de um homem maltratado pela vida. Num instante, ele ergueu o rosto para consultar o relógio de parede e seus olhos revelaram inesperados azuis líquidos, que pareciam capturar e retransmitir todos os reflexos que dançavam nas garrafas e nos metais inoxidáveis do bar-restaurante. Chamava-se Eliseu Mesnil esse homem magro que comia sozinho na mesa mais ao fundo. Era um tapeceiro estofador sem contrato fixo. Trabalhava dois dias aqui, três dias ali, nas diversas lojas de móveis do bairro de Villa Lugano. Tivera, um dia, um negócio próprio lá pela divisa de Almagro e Caballito, uma loja especializada em sofás e poltronas de couro legítimo. As crises econômicas de 2001 e 2002, entretanto, o amaldiçoado Corralito, quando não se podia mais sacar o próprio dinheiro depositado nos bancos, tudo isso levou a loja de Mesnil ao desaparecimento. A mulher de Eliseu Mesnil, Natália vivia na distante e gelada cidadezinha de El Chaltén, na província de Santa Cruz. Cinco anos atrás, ambos decidiram que o divórcio consensual seria a solução para um incômodo que se cronificara, porque o casamento, tal como estava, só lhes servia para trocar desgostos e rancores. Não mais conversavam sequer como amigos e, quando seus corpos se roçavam levemente, fosse na pequena cozinha ou no banheiro, cada qual se esquivava para um lado diferente, enojados do fugaz contato, cada qual a se recriminar pela desatenção. Natália, que nunca pudera ter filhos, deixou para Eliseu uma boneca de pano, lembrança de certo passeio feliz, num dia já misturado a outros dias tolos, sem marcas que os tornassem dignos de ser revividos. A boneca ainda existia, encardida, empoeirada, sórdida, assentada no alto de um armário de roupas. Eliseu pagou a conta e saiu do bar-restaurante. O dia estava sombreado como se já fossem cinco da tarde. Na Calle Montes Carballo, deteve-se num quiosque a fim de comprar cigarros e viu a menina de tranças negras. Comprou também um punhado de balas. Ao lado do quiosque havia um banco de madeira ocupado por uma mulher miúda, que lhe dirigiu um esboço de sorriso. Eliseu sentou-se ao lado dela e ficou a observar a menina que brincava de pular as linhas do calçamento. ”É sua filha?”, perguntou à mulher miúda. “Sim, sim, ela se chama Martina”. “Bela criança”, comentou ele. “Muito alegre. Vê-se logo que é feliz e amada pelos pais”. A mulher miúda sorriu, ao dizer: “Sou viúva, mas procuro oferecer amor em dobro à minha filhinha”. Eliseu também sorriu, deliciado, antevendo inconfessáveis indecências e sevícias... e as duas mortes, que seriam inevitáveis, é claro.
Escrito por Dennis D. : 16h17

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