Os olhos do Sr. Nacaroth / Dennis D.
Relâmpago é uma palavra elétrica, solitária, sem um sinônimo sequer. Re-lâm-pa-go: a primeira sílaba libera a corrente de energia que acende a segunda sílaba; a segunda sílaba explode, brilha no céu da boca, expande sua luz misteriosa, nem quente, nem fria, entre o branco e o azul mais fugaz... e vem a terceira sílaba, que corta, paralisa, desliga, interrompe... porque na derradeira sílaba, inevitavelmente, tudo se afundará na escuridão. "Go"... para o fundo... cada vez mais para o fundo... mais para longe... mais para baixo... "go"... "go"... o magnetismo dos abismos é poderoso, é força cega que nos atrai, que faz brotar, na maioria de nós, o inexplicável desejo de despencar no vazio, agora mesmo, com braços e pernas bem abertos (estrela-humana-viva-cadente). Desejo e medo mancomunados. Zaz! Quem não viu esse relâmpago, não o verá jamais! Pronto! Apagou-se o clarão, desapareceu a cianose da luz mais misteriosa que existe neste mundo. Toda a luz que restou é menos bela, parece excessiva e imbecil, só ilumina o que é desinteressante. O Sr. Nacaroth, velho poeta, fechou os olhos... e pensou: "O que se pode ver com os olhos abertos é apenas o Teatro da Vida Humana. O falso sempre resplandece, ataviado com fantasias tão belas que causam espanto, despertam inveja. No Teatro da Vida Humana, a gente se ilude... por dois minutos, por vinte anos ou durante uma existência inteira: um amor encontrado; um filho perdido; os bolsos cheios, depois esvaziados; a maçã assada a exalar o seu perfume; a inesperada traição daquele amigo; a dor de um osso trincado; o bálsamo na ferida; os mortos enterrados sob chuva fina; os vivos em desespero, aflitos, carentes; todos os sonhos sonhados; todas as mágoas; todos os risos; a indiferença tentando se equilibrar na ponta de uma agulha; as noites insones; o sono mais profundo; o sangue a escorrer do nariz; o orvalho nas uvas da videira; a velhice; o cão que uiva na esquina distante; as areias quentes; o banho no remanso das águas; o balançar gracioso das fúcsias; a aranha que devora a mosca; o mel das colméias... tudo são fantasmas projetados por uma lanterna mágica do século dezenove. Tudo é simplesmente cenografia e farsa, eu sei; tudo é parte do divino drama e da profana comédia. Zaz! Quem não viu esse relâmpago não o verá jamais! Pronto! Apagou-se o clarão!" Ao abrir os olhos, o Sr. Nacaroth reencontrou o pequeno quarto. Ao canto, a pia muito branca, muito limpa, cuja torneira fatigada vivia a prantear, de minuto em minuto. A cama estreita, forrada com o cobertor sem franjas, parecia inclinada, fora de prumo. A mesa, colocada logo abaixo da janela, servia para comer e também para escrever poemas. Da janela se avistava um muro alto e, acima desse muro, um céu cinzento, desses que prenunciam tempestade. Se o Sr. Nacaroth não fosse tão velho, se não fosse tão resignado ou tão realista, por certo choraria. Confortava-o, contudo, a certeza de que o mundo verdadeiro não podia ser visto com olhos abertos. O Sr. Nacaroth fechou os olhos. Ele ficou de pé, imóvel, a esperar pelo relâmpago que, mais uma vez, lhe mostraria a verdade. Veio o clarão. O Sr. Nacaroth sentiu-se novamente reconfortado pela visão que tivera de si mesmo: um pequeno inseto aprisionado no âmbar, isolado de toda a dor, coroado no ventre do silêncio e da eternidade. Um inseto aprisionado no âmbar, sem fome e sem sede, sem desejo algum. Um inseto que parecia morto, mas sonhava. Em seu sonho perfeito, o inseto vivera cada detalhe de uma existência humana. Sonhava agora que, poeta, se fizera velho e solitário... e, ainda, que só lhe restava esperar pela morte. Tudo sonho, tudo teatro, tudo fingimento. Zaz! Quem não viu esse relâmpago não o verá jamais! Pronto! Apagou-se o clarão! O Sr. Nacaroth abriu os olhos.
Escrito por Dennis D. : 00h05

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