Dennis D.



Annette, Paulette e Yvette / Dennis D.

Hoje, três amigas se encontraram para o almoço de domingo.
Annette comeu uma alcaparra, Paulette comeu uma azeitona e Yvette comeu uma rodela de pepino sem sementes.
A sobremesa, fraternalmente dividida, foi uma garrafa pequena de água aromatizada, sem gás, sem açúcar, sem calorias, com leve sabor de maçã.



 Escrito por Dennis D. : 20h36

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Prata e Ouro / Dennis D.

Minha composição Silver and Gold - Brass Fantasy, um estudo de orquestração com metais. Espero que gostem.



 Escrito por Dennis D. : 21h40

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Sonho de uma noite de São João / Dennis D.

Sonhei com meu filho, uma criança delicada, meu Branquinho de Neve que mora muito além de Estocolmo, muito além de Jasminópolis e de Perfumínia, a capital do Reino de Luzil Perol. Meu filho de olhos tristes, de pestanas longas, a obsevar gravuras coloridas num livro quase maior do que ele.
Eu estava ali, mas não estava, mas era como se estivesse, porque enxergava tudo o que se passava e ouvia cada ruído mínimo, até mesmo a conversa das duas formiguinhas fulvas que tagarelavam na entrada de um túnel de caruncho do peitoril da janela. Elas diziam coisas tolas e sem importância, conversas de comadres.
Os dedinhos do meu filho tocavam levemente as paisagens desenhadas pelo primoroso ilustrador Angel De La Guarda.
Sobre um móvel azul celeste havia um pote de vidro com doces.
“Posso pegar um desses?”, perguntei.
Ele fez que sim com a cabecinha, sem levantar os olhos capturados pelas gravuras de Angel.
Sentei-me ao lado dele, na cama macia. Também quis apreciar os desenhos. Ficamos bem quietos. Um relógio de parede fazia “tic”, “tic”, “tic”, “tic”. Seu pêndulo era um ratinho branco que se balançava pelo rabo. O mostrador tinha números romanos, cada qual de uma cor. E havia um único ponteiro, que girava em velocidade inconstante, ora depressa, ora bem devagar, ora em soluços, ora em tremores, como se tiritasse de frio.
Eu me sentia tão feliz que me veio, de repente, uma vontade de chorar. Um choro de felicidade, sim, porque nada me faltava, naquela hora, nada eu queria, nada eu temia, nada eu esperava, nada mais eu tinha a fazer, senão me deixar existir. Alguma coisa é mais comovente do que a simplicidade?
Conforme o ratinho branco se balançava no relógio, os seus olhos de rubi fechavam e abriam, e os seus bigodes de prata vibravam.
Não havia mais nada para entender. Ali eu estava bem ajustado. Fora dali tudo era o avesso do Céu.



 Escrito por Dennis D. : 02h26

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Tio Nenê / Dennis D.

Tio Nenê abriu os olhos e disse “bom-dia” à atendente Tatiana. Virou a cabeça em direção às janelas e viu que ainda era noite fechada. Agradeceu mentalmente a Deus por estar num leito tão confortável e limpo, no quarto particular de um dos melhores hospitais de São Paulo.
Ele sentiu, então, que a friagem dos pés lhe subia em direção aos joelhos. Não era tolo e percebeu o significado daquele frio que, dos joelhos, já se irradiava para as magras coxas. Pediu uma revista e uma caneta. “Depressa, mocinha! Depressa, por favor!”
Na escrita urgente, garranchada sobre um anúncio da Coleção de Inverno C&A, Tatiana leu: “Meu sobrinho José Paulo é, na verdade, o meu filho biológico. Podem fazer o DNA. Perdão, Palmira, minha velha.”
Os aparelhos emitiram um apito contínuo, que misturou-se ao ronco abafado do último peido de Tio Nenê.



 Escrito por Dennis D. : 08h21

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Piano Feliz / Dennis D.

Minha composição Piano Feliz
(piano, piano elétrico, sax, glockenspiel, violão, baixo, bateria).



 Escrito por Dennis D. : 00h04

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Inesquecível / Dennis D.

Antes de sair para jantar, canto esta canção para vocês.

Inesquecível, é o que você é
Inesquecível, seja perto ou longe
Como uma canção de amor que se liga a mim
Como pensar em você me faz sentir coisas!
Nunca, antes, alguém foi tanto para mim

Inesquecível, de todas as maneiras
E, para sempre, é como você ficará
E é por isso, minha querida, que é incrível
Que alguém tão inesquecível
Ache que eu sou inesquecível também
________

Unforgettable thats what you are..
Unforgettable though near or far..
Like a song of love that clings to me
how the thought of you does things to me
never before has someone been more

Unforgettable in every way
and forever more
thats how you'll stay 
thats why darling its incredible
that someone so unforgettable
thinks that i am unforgettable too



 Escrito por Dennis D. : 20h36

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Pense, por favor, em um  Brasil que ainda não existe, um Brasil que poderá existir num futuro distante, muito tempo depois destes vergonhosos anos de lodo, de mentiras, de patifarias e de impunidades. Foi nesse Brasil imaginário e ainda por vir que eu me focalizei para conseguir criar esta peça de estudo, minha Fantasia Sobre o Tema do Hino Brasileiro.



 Escrito por Dennis D. : 20h51

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A história de Orestes / Dennis D.

Filho parido no leito de morte de uma prostituta tuberculosa, o recém-nascido fora deixado na porta de um centro espírita, no bairro de Jaguaribe, em Campos do Jordão. João Bandeira, o presidente do tal centro, levou a criança à casa de três irmãs solteiras e ricas, D. Clarinda, D. Nina e D. Joviana, e pediu-lhes o favor de cuidar do pequenino até que lhe fosse providenciado um lar definitivo.
Os meses foram correndo e as três mulheres a cuidar do enjeitadinho. Não tardou e arrumaram-lhe um registro de nascimento legalmente falso. Assim, o menino passou a se chamar Orestes Camargo, filho de Clarinda Dias Camargo, a mais jovem das três irmãs solteiras. Assim ficaram as coisas, um arranjo que transformou o menino em único herdeiro de duas grandes fazendas no Vale do Paraíba.
D. Clarinda, D. Nina e D. Joviana tinham um sotaque francês. Haviam crescido, estudado e vivido em Paris durante décadas e décadas, apenas retornando ao Brasil quando morreu o pai, um certo Benedito Camargo, que já havia enterrado a esposa há anos. Coisa triste, aliás, a morte desse fazendeiro: vinha ele montado em seu cavalo Trovão, quando, ao atravessar um pasto seco, assim, do nada, um raio lhe partiu ao meio, a ele a ao pobre cavalo. As quatro partes fumegantes ficaram ali no meio do pasto seco, até a chegada do capataz. Nem chover choveu, naquele estranho dia.
O menino Orestes cresceu, estudou, transformou-se num rapaz forte, bonito, elegante e que falava com erres afrancesados. Não tinha maneiras afeminadas, apesar do sotaque meio esquisito e dos modos excessivamente polidos. No dia em que fez dezoito anos, ganhou um carro de luxo e foi chamado para uma conversa séria com Tia Joviana, a mais idosa. Esta trancou a porta da biblioteca, sentou-se à escrivaninha e pediu que Orestes prestasse muita atenção no que diria a seguir. Disse, então, que ele deveria tomar muito cuidado para não perder os seus direitos hereditários, após a morte da última delas. E, balançando o dedo indicador, ela advertiu: “Um passo em falso, Orrrestes, e você irrrá perderrr tudo, tudo.”
Ele quis saber o motivo daquele aviso sinistro, já que todos os seus documentos estavam aparentemente em ordem, bem como os documentos das três senhoras e a papelada das fazendas.
Tia Joviana foi franca: “Não haverrrá prrroblema algum, Orrrestes, se você souberrr conduzirrr as coisas, assim como nós trrrês fizemos porrr ocasião da morrrte de papai. Chegou a horrra, meu querrrido de você saberrr porrrque, ainda crrrianças, eu, Nina e Clarrrinda fomos mandadas parrra Parrris...”
Após ouvir o relato de hora e meia, um atordoado Orestes deixou a Biblioteca e foi até o armário de remédios em busca de aspirinas. Tomou três comprimidos de uma só vez, ali mesmo, sem água. Subiu ao quarto e jogou-se na poltrona de leitura. Ele acabara de saber que as queridas tias não eram tias, e sim tios. Três homens registrados e criados como mulheres, porque uma mãe demente, dias após dar à luz, capara cada um de seus bebês. O pai dos capadinhos, que não era louco, mas era excessivamente vaidoso, acobertara os crimes do único modo que julgou possível.
Orestes sentiu-se grato por Tia Joviana ter revelado o segredo da família Camargo. Imaginou o quanto lhe custara fazer o relato de toda aquela atrocidade. E o fizera por amor a ele, Orestes, para que ele não viesse a perder os seus direitos de herdeiro. Agora, pelo menos, ele já estava devidamente preparado, saberia como agir, saberia como evitar problemas com médicos, com internações hospitalares e com atestados de óbito. Tudo ficara bem esclarecido. Cada detalhe fora previsto e dissecado por Tia Joviana.
Ainda perplexo e com os nervos em frangalhos, Orestes fechou os olhos e submergiu num silêncio abissal.
Vinte minutos depois, abriu os olhos e murmurou para si mesmo: “Puta que parrriu!”
Levantou-se da poltrona e foi tocar la vie.



 Escrito por Dennis D. : 09h55

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Bloody Mary / Dennis D.

Ele estava sentado no banquinho do bar, ambos os cotovelos apoiados no balcão e a cabeça levemente inclinada para a esquerda, como fazem as aves quando estão a observar alguma coisa que as intriga. Naquele caso, ele observava a ruiva que ocupara a ponta extrema do balcão. Era uma mulher magra, ainda jovem, nem bonita e nem feia, que trazia indisfarçáveis marcas de destruição no rosto e no corpo. Possivelmente, a alma também estivesse destruída, mas isso não vinha ao caso. O bartender atendeu-a com certa familiaridade e chamou-a de Senhorita Velma Cynthia. Ela pediu outro bloody mary estupidamente gelado e começou a inventariar o conteúdo de sua bolsa prateada.

De repente, os olhos dela se encontraram com os dele e um sorriso discreto se desenhou naqueles lábios engrossados com inúmeras camadas de batom.

Ele retribuiu o sorriso, mas ela logo desviou o olhar para a bolsa, onde um telefone celular emitia sons que lembravam harpas celestiais.

Dando costas ao balcão, ela atendeu a chamada. Ele notou que os cabelos da Senhorita Velma Cynthia estavam presos numa espécie de coque afrouxado. Quando ela fechou o aparelho e virou-se para o bar, seu rosto estava transfigurado pela indignação. Ela fez sinal ao bartender, a fim de que este preparasse outro bloody mary.

Ele pensou em se aproximar da ruiva e oferecer-lhe algumas palavras confortadoras. Começou a pensar na melhor frase para iniciar a conversa, mas não houve tempo. A Senhorita Velma Cynthia consumiu o seu segundo bloody mary, deixou uma nota de cinquenta dinheiros sobre o balcão e saiu.

Ele girou o corpo no banco e acompanhou o andar vacilante da ruiva. Viu-a cruzar a porta dupla de vidro e ficar parada na calçada. Lodo depois, ela ergueu e sacudiu o braço, como se estivesse fazendo sinais para um taxi, mas não apareceu taxi algum. Também poderia estar acenando pra algum conhecido. Mais alguns minutos imóvel e a Senhorita Velma Cynthia abriu sua bolsa prateada.

Ele pensou que ela fosse apanhar o celular, mas foi um pequeno revólver que apareceu na mão da ruiva. O revólver desapareceu de vista e ela se curvou para frente, como se tivesse metido o cano da arma na boca.

Nesse instante, ele saltou do banco e correu em direção à porta. Saiu do bar, mas a ruiva havia desaparecido.

Ao retornar, viu o bartender depositar um bloody mary diante de outra ruiva, que tomara assento no mesmíssimo lugar anteriormente ocupado pela Senhorita Velma Cynthia. Mas a ruiva não era outra, era a própria Senhorita Velma Cynthia, embora estivesse com um vestido e um penteado diferentes. O bloody mary desapareceu em menos de dois minutos.

Ao perceber-se observada, ela sorriu para ele. Em seguida, ouviu-se aquele som de harpas celestiais e a ruiva atendeu a chamada do celular. Deu costas ao balcão e exibiu a nuca desnuda sob um coque alto.

E quando a ruiva encerrou a ligação e voltou-se para o bar, tinha o rosto iluminado de prazer. Ela fez sinal ao bartender, que se pôs a preparar mais um bloody mary.

“O seu nome é Velma Cynthia?”, ele perguntou à ruiva feliz.

“Não, não. Eu me chamo Sarah Evangeline. Velma Cynthia é minha irmã mais velha. Ela vem aqui todas as quintas-feiras. Hoje é meu dia de passar por aqui: quarta-feira. De onde você conhece a Velma Cynthia? Lá do Déjà Vu Dancing Club?”

Ele precisava de algum tempo. Não conseguiu responder. Suas têmporas começaram a latejar...



 Escrito por Dennis D. : 15h26

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Pedro Ímphimo / Dennis D.

Pedro Ímphimo sempre foi um chato, Desde menino, “desde o útero materno”, como dizia sua mãe. Além de chato, ele tinha verdadeiro horror a germens e bactérias: lavava as solas dos sapatos, todo o santo dia, quando voltava para casa; deu um primeiro e único beijo na boca de uma mulher, porque estava bêbado de cair e, ainda assim, foi um falso beijo, pois entre a boca da fulana e a boca de Pedro Ímphimo havia uma folha de papel-filme, desses usados nas cozinhas mais higiênicas.

Um dia, Pedro Ímphimo acordou sozinho. Todos os parentes o haviam abandonado. O cachorro e o papagaio também deram no pé. Triste, Pedro sentou-se na beira da cama e levantou os olhos para os porta-retratos enfileirados sobre a camiseira. Naquelas fotos todas ele também ficara sozinho: havia apenas manchas brancas em lugar das imagens dos parentes e dos colegas que antes o acompanhavam nas fotografias. Na foto mais recente, em que Pedro estava com o braço sobre os ombros da avozinha, esta também havia desaparecido. A avozinha fugira tão apressada que deixara, pairado no ar, o seu sutiã com um alfinete de gancho na alça a prender medalhinhas de santos e um agnus dei.

...

'In My Solitude' é uma bela canção que certamente está entre as minhas 10 preferidas. Música de Duke Hellington com letra de Irving Mills, composta em 1934, traz uma carga de lirismo e de sentimentalidade que não se esgota com o passar das décadas. Eu canto aqui.

In my solitude you haunt me
With reveries of days gone by
In my solitude you taunt me
With memories that never die
I sit in my chair
I'm filled with despair
There's no one could be so sad
With gloom ev'rywhere
I sit and I stare
I know that I'll soon go mad
In my solitude
I'm praying
Dear Lord above
Send back my love



 Escrito por Dennis D. : 08h46

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Felícia Felix / Dennis D.

Felícia Felix estava tão triste, tão desamparada, que ergueu a mão e tocou as nuvens cinzentas. As nuvens correram frias pelos seus dedos e, não demorou, veio uma chuva derramada em silêncio, sem ventanias, sem trovoadas. Ela abaixou a cabeça e ficou sentindo a chuva a cair nos cabelos e na nuca. Depois, também sentia o riacho escorregando pelas costas, fazendo o tecido da blusa grudar na pele.
Ali era proibido pensar em coisas deprimentes, porque aquela era a Terra da Alegria Sem Fim, a capital do Melhor dos Mundos, onde o riso eterno enlouquecia as pessoas e os prazeres intermináveis as tornavam absolutamente incapazes de perceber o significado da verdade ou da arte. Mesmo com os olhos semicerrados Felícia percebia os palhaços ao seu redor. Eram cem? Eram mil? Eles giravam em uma grande ciranda de gargalhadas, cada vez mais depressa, cada vez mais depressa, uma coisa de dar medo. Felícia, então, chorou por si mesma e chorou por eles, pelos palhaços que só sabiam gargalhar. E por viver na Terra da Alegria Sem Fim, as lágrimas da mulher triste foram pingando cada qual de uma cor diferente, cada qual com seu sabor e seu aroma: menta, morango, chocolate, abacaxi, laranja, cereja, uva e tutti-frutti. Os palhaços aplaudiram e pediram mais lágrimas coloridas. Lágrimas eram coisa que ainda desconheciam, porque ninguém ali chorava, ninguém ali era minimamente humano. Apenas Felícia havia percebido que o Melhor dos Mundos era, na verdade, o pior dos mundos, o mais triste dos mundos, o mais colorido e o mais feio dos mundos.

...

Autumn Leaves (acompanhamento: Suitcase Electric Piano)



 Escrito por Dennis D. : 22h14

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Serenata em La Menor / Dennis D.

Minha composição Serenata em La Menor (Autumn Serenade in Am - original composition)



 Escrito por Dennis D. : 23h03

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